O preço da transgressão

Há um pensamento ainda presente na sociadade do século XXI segundo o qual sempre que existe uma transgressão por amor; seja uma traição que ofenda os deveres matrimoniais ou uma atitude trocista perante os valores sociais dominantes, deve ser a mulher transgressora a pagar o preço. Muitas vezes é a própria mulher que se predispõe à culpabilização e se deixa enfraquecer, entendendo no seu íntimo que não deveria ter saído do apertado espartiho do seu ambiente de conforto.
A literatura clássica insistiu neste estigma até à exaustão.
Eça de Queiroz fez com que o castigo para o “Crime do Padre Amaro” fosse a morte de Amélia; depois também a Luísa do “Primo Basílio” acabou morta enquanto que o eficiente conquistador passeia pelas ruas de Lisboa considerando a sua malograda amante como “um trambolho” que apenas servia “como higiene para os poucos meses que passaria em Lisboa”.
Os Classicos estrangeiros seguiram a corrente de fatalismo e Tolstoi deu à bela Anna Karenine uma morte sangrenta debaixo de um comboio. Assim como a Madame Bovary de Flaubert que embora perdoada pelo marido traído não foi poupada a umas febres fatais.
No tempo da modernidade a tragédia deve ser aliada ao belo e na vida real o fim de uma paixão, o fim do prazer deveria sempre saldar-se numa batalha sem vencedores em que os sacrificios devem ser suportados em partes iguais. O sofrimento de apenas um dos apaixonados torna qualquer paixão desiquilibrada, pois se conclui que apenas um amou.

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