Nunca tive uma personalidade dotada para lidar elegantemente com as frustações. Quando tenho um daqueles dias negros em que odeio as pessoas e me odeio a mim própria fico mesmo insuportável, vou alimentando um puéril desejo de parar o mundo enquanto eu me recomponho e despejo a minha fúria em qualquer inocente que me possa melindrar. Ora, a única solução é fechar-me entre quatro paredes até passar, fingindo que pedi uma pausa ao correr frenético do tempo ou então mergulhar numa total ausência de tempo… Esta é uma medida bem necessária a todos aqueles tolos que, como eu, não conseguem democratizar as suas fragilidades, só os seus triunfos;e, talvez por isso, sejam sempre tão solitários nas suas tristezas sofrendo ao quadrado, cientes de que os outros desconhecem as suas quebras, podendo voltar resplandescentes e sem mácula quando a nuvem negra passar. Mas o facto é que nunca voltamos iguais depois de uma perda, sempre que vai embora algo de importante na nossa vida, uma parte de nós definha também e por isso voltamos ao mundo como uma versão transfigurada de nós mesmos.
Nada posso fazer, sou mesmo assim, nunca partilho o que é mau, as desgraças ficam comigo até ter forças para me levantar sozinha à custa da minha estouvada máscara de imunidade. Apesar de lidar mal com essa realidade das minhas muitas fraquezas, ou com o peso de alguns erros, não crei que os não saiba combater apenas os deixo sufocar até as memória não querer guardar mais e, por fim, libertar-me…